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domingo, 5 de agosto de 2012

O Passaro que não voava

O Pássaro que não voava


A noite foi tranqüila e o dia seguinte prometia ser muito feliz, pois finalmente, depois de dezoito dias de incubação, aquele ovo dava sinais de que seria rompido. Estranhamente a mamãe Periquito pôs apenas um ovo desta vez e comentava isto com seu marido, mas este estava tão ansioso pelo nascimento que não discutia o assunto.
Quando os primeiros raios de sol começaram a tocar as folhas das árvores, de cima de uma delas o ovo se quebrara e o pequeno Periquito Tuim foi lançado ao chão. Caiu e sentiu dor, mas uma dor tão intensa, que chorou. Foram aquelas as primeiras lágrimas do pequeno Periquito Tuim.
Durante vários dias Mamãe Periquito voava para bem longe onde podia encontrar sementes e frutos de palmeiras e imbaúbas, que serviria de alimento para seu filhote. Arrancava um pequeno pedaço e voava com ela no bico. E no bico, lhe entregava. Mas o pequeno Periquito Tuim tinha muita fome, e sua mãe fazia este trajeto várias vezes por dia, até que ele não mais reclamasse.

Mas certo dia foi chegado o tempo - e sobre isto somente a natureza pode explicar - em que o pequeno Periquito Tuim deveria seguir seu próprio rumo e desta forma, sua mãe lhe falou:

"De hoje em diante você deve buscar seu próprio alimento.
- dizia ela mesmo que um tanto quanto insegura. Deverás voar pelo mundo, descobrir novos lugares e entender que você é livre para fazer o que deseja, mas com responsabilidades".

"Mas o que é ser livre?" - perguntou ele.

"Ser livre é não estar preso dentro de uma casca". - respondeu a mãe.

E usando este termo, o pequeno Periquito Tuim entendeu perfeitamente, pois ainda se lembrava desta condição.

"E o que é responsabilidade?" - insistiu ele.

"É a obrigação que você tem de responder pelos seus próprios atos. - respondeu ela.
- Quer dizer que você pode voar, porque é livre, mas terá que conhecer as pessoas e os lugares que você irá freqüentar, pois será responsável por tudo isso, por cada bater de asas em seu caminho'.

"LIBERDADE E RESPONSABILIDADE" - repetiu ele em alto e bom som para que não se esquecesse destas duas palavras e de seus significados.
Sendo assim, sua mãe voou, cortando o céu com suas asas e quando o pequeno Periquito Tuim tentou bater as asas para fazer o mesmo, sentiu dor, mas uma dor tão forte que fez com que ele parasse. Olhou rapidamente para o céu e viu que sua mãe se distanciava, perdendo-a de vista.

E durante toda aquela manhã ele passou observando o ninho de onde caíra. Iria esperar até que seus pais retornassem. Mas a tarde estava chegando ao fim, e nenhum dos dois retornou ao lar. O pequeno Periquito então chorou, pois se sentiu extremamente sozinho.


Ouvindo seu choro, um beija-flor se aproximou.

“Porque choras?” – foi sua pergunta.

E o Periquito Tuim, olhando para ele, respondeu:

“Choro porque não consegui voar e meus pais não retornaram para casa ainda”.

“E onde moras?” – perguntava o beija-flor tentando entender um pouco mais aquela situação.

“Moro no alto daquela árvore” – disse ele apontando para o local.

E num piscar de olhos ele foi até o ninho e verificou que realmente não havia ninguém por lá.

“Mas quem é você?” – indagou o Periquito Tuim já com as lágrimas contidas.
“Eu sou um Beija-Flor!” – respondeu orgulhoso.

“Que nome engraçado. Você anda por aí beijando as flores?”

“Nós, os beija-flores, somos os menores pássaros do mundo. Acho que este nome deve ser devido ao fato de que nos alimentamos do néctar das flores através deste bico longo que possuímos. Podemos bater as asas tão rápido que praticamente paramos no ar, e assim, temos nosso contato com as flores. Alguns humanos colocam bebedouros em seus jardins para que a gente se aproxime e encante seus dias”.

O Periquito Tuim não sabia ao certo o que eram os “humanos”, mas não quis entrar em detalhe, pois começava a escurecer e estava bastante preocupado.

“É uma pena que eu não possa lhe ajudar – disse o beija-flor – mas se por acaso eu encontrar com seus pais por aí direi que você precisa deles”.

“Obrigado – disse o Periquito, e como queria saber um pouco mais sobre os “humanos”, deixou no ar esta idéia – e volte algum dia para a gente conversar melhor”.

E assim, o beija-flor bateu suas asas e se afastou em uma velocidade incrível.

Quando o sol começou a se pôr e a sombra já cobria boa parte da floresta, e Periquito Tuim ouviu um canto magnífico.

“Quem está cantando desta maneira tão bela?” – perguntou ele.

Mas não obteve resposta alguma e o canto continuava. Somente quando parou de cantar foi que o pequeno pássaro amarelado se aproximou.

“Boa tarde meu caro Amigo”.

“Boa tarde. – respondeu o Periquito Tuim. – Era você quem cantava?”

“Sim”. – respondeu o pequeno pássaro.

“E qual o seu nome?”
“Eu sou um canário” – respondeu ele.

“Ah, sim. Minha mãe me disse certo dia que os canários são excelentes cantores”.

“E onde está sua mãe?” – perguntou o canário.

E o pequeno Periquito Tuim fez um breve silêncio.

“Eu não sei. Ela estava tentando me ensinar a voar quando senti uma dor em minhas asas. E, infelizmente, ela não olhou para trás e me deixou aqui sozinho”.

“E você não tem medo de ficar sozinho?”

Foi então que o Periquito Tuim percebeu que deveria se impor um pouco mais frente às dificuldades que surgiam.

“Eu já sou grande – disse ele – e já não tenho medo de nada”.

“É uma pena – disse o canário – pois desta forma você pode ficar muito exposto ao ataque do Gavião”.

“Gavião?” – perguntou o Periquito.

“Sim – respondeu o Canário – o pássaro mais temido desta região. Normalmente ele fica no topo das árvores observando sua presa. Dizem que ele só teme os humanos”.

E novamente alguém falava nos humanos, mas desta vez não iria deixar escapar a oportunidade.

“O que são os humanos?” – perguntou finalmente.

O Canário fez um longo silêncio.

“Os humanos são animais muito perigosos e difíceis de se entender”.

Mas aquela frase não havia feito sentido algum para o Periquito Tuim.

“Explique melhor!” – exclamou ele.

“Vou lhe contar uma pequena história e talvez assim você entenda um pouco da natureza destes seres”.

E o Periquito Tuim sentou-se ao seu lado para ouvir a história.

“Era uma vez um lindo pássaro silvestre que ainda muito pequeno foi capturado em um alçapão e retirado da floresta. Desde pequeno fora criado em uma gaiola, sozinho, e alimentado para participar de concursos de canto. Em sua fase de crescimento, ganhou muitas competições e prêmios, mas quando ficou velho seu potencial de canto diminuiu e acabou sendo trocado por outro, mais jovem e mais bonito. Como já não era mais o preferido de seu dono, a alimentação passou a não ser mais a mesma e ele chegou a passar fome e sede, pois sua água já não era trocada”.

O Canário olhou para o pequeno Periquito à sua frente e viu que este prestava atenção às suas palavras.

“Um dia a gaiola caiu e a porta se abriu. Mesmo com o sofrimento de ter sido trocado ele não queria fugir, pois se acostumara demais com aquela vida. Foi quando viu uma canária passar e resolveu segui-la. Era necessário aprender coisas novas e ele sabia que havia uma floresta em algum lugar, da qual ele fora retirado um dia. E assim, ele voou para trilhar seu próprio caminho. Talvez o humano que o criou não tenha nem mesmo sentido sua falta, mas em contato com a floresta sua voz soava melhor e agora cantava com mais vigor e força”.

Quando terminou de falar ele ficou pensativo e foi o Periquito Tuim quem falou:

“Quer dizer que os humanos usam os outros para obter vantagem e quando não precisam mais se desfazem? Quer dizer que eles privam os outros de viverem em seu próprio lar e depois agem assim? Os humanos devem ser terríveis”.

“E depois de algum tempo o pássaro entendeu que a razão de seu canto não estar mais como há tempos atrás era porque se sentia só, e sempre que via outros pássaros sobrevoarem sua gaiola, sentia uma enorme vontade de ser livre”.

“Ser livre é não estar preso dentro de uma casca ou de uma gaiola”. – comentou o Periquito Tuim lembrando as palavras de sua mãe.

O Canário não falou mais nada e apenas se despediu. Já havia sofrido demais nas mãos dos humanos.

Quando o dia amanheceu o Periquito Tuim já estava de pé, mas mantinha-se escondido na base da árvore onde ficava seu ninho. Seus pais não haviam retornado e durante toda a noite ele teve medo. Chegou a se irritar com o barulho que uma coruja fazia, mas nada podia dizer, pois estava sozinho e indefeso e não queria que mais alguém soubesse.

Foi então que avistou um outro pássaro que recolhia gravetos no chão e aquela já era a terceira vez que ele passava por ali.

“Quem é você?” – perguntou o Periquito Tuim.

“Sou um João-de-Barro!” – foi sua resposta.
“João de quê?”

“João-de-Barro. – repetiu ele. Nós somos os maiores construtores que a natureza possui”.

“Mas o que é um construtor?” – indagou o Periquito Tuim.

“Como não sabes o que é um construtor? É aquele que modifica uma paisagem e constrói aquilo que antes estavam apenas em seus sonhos”.

“Está vendo aquele ninho, ali, em cima daquela árvore?”

“Aquele é o meu ninho”. – disse o Periquito.

“Então você deve ser um Periquito Tuim e como sempre acontece, vocês se aproveitam das casas que construímos e que deixamos para trás”. – disse o João-de-Barro embora soubesse que aquele que estava à sua frente era muito novo.

O Periquito Tuim nada respondeu, pois não sabia quem havia construído seu ninho.

“Mas escute, meu rapaz. Se eu fosse você, voltaria para o seu ninho rapidamente. Ontem estive passando por aqui para buscar alguns gravetos e um pouco de barro para construir uma nova casa e vi que você chorava, e depois vi quando o beija-flor e o canário estiveram por aqui. Acontece que pude perceber que o Gavião desde ontem que não sai da copa de uma árvore próxima daqui e, pelo pouco que conheço, ele está à espera de uma presa”.

O Periquito Tuim agradeceu a preocupação do João-de-Barro, e contou-lhe sua história, dizendo que não poderia voltar ao ninho sozinho.

“Então se proteja meu rapaz. Proteja-se”. – e dizendo isso, voltou ao trabalho, e logo em seguida voou com um pequeno graveto no bico.

O Periquito Tuim resolveu não se arriscar demais e voltou para a base da árvore onde estava seu ninho. Qualquer barulho que ouvia vindo do topo da árvore ele olhava para ver se eram seus pais. Mas seus pais ainda não haviam retornado e seu medo aumentava a cada instante.

Foi então que pôde ver um pássaro negro, bem maior do que o beija-flor, o canário ou o joão-de-barro pousar bem próximo a ele.

“Quem é você?” – perguntou o Periquito Tuim.

“Sou um pássaro negro. – respondeu ele. O que faz aqui sozinho?”

E o pequeno Periquito Tuim contou mais uma vez sua história. Falou também sobre as visitas anteriores que tivera, falou sobre o que aprendera sobre os humanos e comentou sobre o que falaram a respeito do Gavião.

“Eles disseram isso?” – perguntou o pássaro negro.

“Sim. E pediram que eu tivesse cuidado”.

“Os pássaros menores, que se alimentam basicamente de sementes e frutos temem os gaviões porque são fracos. – disse o pássaro negro. E estamos na floresta, e sendo assim, o que vale é a lei da selva”.

“O que é a lei da selva?” – perguntou curioso o Periquito Tuim.

“É a lei que diz que os mais fortes dominam os mais fracos”.

“Mas isto não é justo” – esbravejou ele.

“Não é questão de justiça, mas sim de sobrevivência. Nós, os gaviões, somos mais fortes, e temos todo o direito de atacar outros animais. Até mesmo os humanos gostam de nós, pois matamos cobras venenosas. Muitos caçadores nos levam no ombro em suas caçadas porque podemos reconhecer uma presa à distância”.

E quando ele disse isso, o Periquito Tuim tentou não demonstrar o medo que sentia, mas afastou-se bem devagar e entrou na base da árvore onde ficava seu ninho.

“Venha cá que eu ainda não terminei”. – esbravejou o Gavião.

“Você é mal. Ataca animais indefesos conforme me disseram meus amigos”.

“Mal, eu? Só porque não quero passar o resto de meus dias procurando por sementes e frutos? Vou lhe dizer uma coisa Periquito, quando passares fome saberá o que digo. Todos os animais existentes neste planeta – no ar, na água, na terra, e nisto também se inclui os humanos – quando estão acuados eles atacam. Então, se tenho fome, vou atacar aqueles que estiverem mais próximos ou aqueles que forem mais fracos”.

E o Periquito Tuim mantinha-se escondido na base da árvore.

“Mas por hora vou deixar-lhe em paz. Mas tenha cuidado porque, sem asas, não irá muito longe. Se não puder voar, não terá como se alimentar e somente assim descobrirá o significado das palavras que lhe falei”.

E falando isso, o Gavião voou para longe e logo depois pousou em um galho de uma árvore seca e pôs-se a observar as redondezas com sua fisionomia severa e ares de dono dos céus.

A sombra começava a tomar conta da floresta quando o Periquito Tuim ouviu um som que vinha do alto da árvore. Seus pais o saudaram e ele sentiu-se extremamente feliz em vê-los novamente.

“Onde estiveram?” – perguntou ele.

Mas os dois ficaram em silêncio. Seu pai voou em busca de alimento e foi sua mãe quem falou:

“Estivemos todo este tempo observando seus passos. Vimos quando o beija-flor, o canário e o João-de-barro se aproximaram. Tivemos um grande medo enquanto o Gavião conversava com você, mas queríamos ver como você se sairia frente às dificuldades”.

“E como eu me saí?” – perguntou ele sem entender direito aquela situação.

“Maravilhosamente. – foi sua resposta. – já está preparado para seguir sua própria vida, alçar seu próprio vôo”.

“Mas minha asa está dolorida”. – disse ele com um tom de voz bem baixo.

“Vai passar. Em breve estaremos voando juntos, partilhando do mesmo bando. Há dezenas de periquitos Tuim à nossa espera”.

E assim a mamãe periquito pegou seu filho pelo bico e o levou até o ninho. De lá de cima, pela primeira vez, ele prestou atenção no sol que estava se pondo. Contou lhe a história de um pássaro que se tornara um grande cantor e falou tudo o que aprendeu sobre os humanos.

E os dias seguintes foram de repouso, até que o Pequeno Periquito Tuim conseguiu bater suas asas e voar seguindo um bando de outros periquitos. A partir de seu primeiro vôo ele pôde ver toda a grandiosidade da floresta que se erguia majestosa. Viu também o João-de-Barro que estava terminando sua casa no topo de uma árvore bem alta e acenou para ele.
Uma nova vida começa, a partir de agora, para o periquito Tuim, e muitos vôos ainda virão. Sua luta agora era para não ser capturado pelos humanos e nem mesmo ser uma presa muito fácil para o Gavião. Teria que lutar contra a lei da selva, os fracos contra os mais fortes, tentando sobreviver.

Carlos Eduardo Nunes

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